Identidade judaica

“O Rav Shmuel Grinblat (nome fictício) viajou de Jerusalém para a Itália com o intuito de arrecadar fundos para as suas instituições de caridade. Lá ele conheceu o Sr. Mandelbaum (nome fictício), um dos milionários mais generosos da comunidade, que o recebeu muito bem e o convidou a conhecer sua casa. Mas não era uma simples casa, era uma incrível mansão, certamente a mais bonita que o Rav Shmuel já havia visto em sua vida. Enquanto contemplava a riqueza e o luxo daquela mansão, algo chamou sua atenção. Em uma das prateleiras, junto com outros enfeites, havia uma garrafa de vidro quebrada, velha e suja de óleo. O Sr. Mandelbaum, percebendo a surpresa do seu convidado, disse:
 
– Eu sei que você está estranhando ver cacos de vidro sujos expostos na prateleira. Certamente não é um enfeite encontrado em qualquer casa. Mas fique sabendo que tudo o que eu tenho hoje em dia eu devo a estes cacos de vidro…

Então o Sr. Mandelbaum começou a relatar ao rabino sua fascinante história:
 
– Eu vim de uma família religiosa. Desde criança estudei em uma escola judaica na Holanda. Meu avô era um grande comerciante aqui na Itália e, como eu era o mais velho dos netos, ele me pediu para que eu viajasse à Itália para ajudá-lo com sua loja. Ele já estava velhinho e estava muito pesado para tomar conta dos negócios sozinho. Ao chegar aqui na Itália, ainda muito jovem, eu descobri que tinha um tino comercial e rapidamente me tornei um vendedor bem sucedido. Pouco depois meu avô faleceu, deixando-me como o único responsável por todo o negócio. Porém, conforme eu crescia nos negócios, pouco a pouco ia me afastando do judaísmo. Parei de rezar, fui abandonando as Mitzvót e no final acabei me assimilando completamente.

– Muitos anos depois, já casado e com filhos, estava caminhando na rua quando vi algumas crianças judias brincando – continuou o Sr. Mandelbaum, visivelmente emocionado – Uma das crianças chorava sem parar e gritava: “O que eu vou dizer ao meu pai? O que eu vou explicar para ele?”.  Me aproximei e perguntei o que havia acontecido. O garoto apontou para uma garrafa de óleo toda quebrada e uma poça de óleo escorrendo pelo chão da rua. Ele me explicou, chorando muito, que seu pai havia passado meses economizando dinheiro para comprar óleo para acender as velas de Chánuca. Ele havia pedido ao filho para que fosse ao mercado comprar uma garrafa de óleo. No caminho de volta, a criança havia parado para brincar com seus amigos e acabou deixando a garrafa quebrar, derramando todo o precioso óleo. Agora ele estava desesperado de pensar em como contaria ao pai. Ao ouvir o que havia acontecido, fui até a loja e lhe comprei uma garrafa nova. O menino ficou muito feliz e eu também, pois depois de tantos anos senti que havia feito uma grande Mitzvá. No entanto, a frase daquele menino ficou gravada na minha memória: “O que vou dizer ao meu pai?”. Naquele dia, voltando para casa, eu comecei a perguntar a mim mesmo: “Quando chegar a minha hora, o que vou dizer ao meu Pai Celestial? Como vou acertar as minhas contas?”. Então, voltei ao local em que havia encontrado o garoto e recolhi os cacos da garrafa quebrada. Naquela noite eu fiz algo que há muitos anos não tinha feito: acendi uma vela de Chanucá. Senti que aquela vela que brilhava também acendia dentro de mim a minha alma, que estava há tantos anos apagada. Desde então voltei a respeitar o Shabat, a dar Tzedaká (caridade) aos necessitados e a cumprir outras Mitzvót, o que faz me sentir mais íntegro e a ter ainda mais sucesso em todos meus negócios.
 
Com os olhos cheios de lágrimas, o Sr. Mandelbaum olhou para o Rav Shmuel e disse:
 
– Agora você entende por que esta garrafa de óleo que eu guardo, a mesma garrafa quebrada do menino, é tão especial para mim?” (História Real).

Nesta semana lemos a Parashá Tzav (literalmente “Ordene”), que continua descrevendo alguns dos Korbanót (sacrifícios) oferecidos no Mishkan (Templo Móvel). Entre os diversos Korbanót, um dos que mais nos chama a atenção é o “Korban Todá”, oferecido em agradecimento a D'us por alguma salvação. E isto conecta a nossa Parashá com a próxima parada do nosso calendário judaico, a festa de Pessach, que começamos a reviver na próxima 2ª feira de noite (10 de abril). Pessach também é conhecida como “Zman Cheruteinu” (Época da nossa liberdade), pois é um momento do ano no qual nós recordamos e agradecemos nossa libertação da terrível escravidão egípcia, que ocorreu envolvendo incríveis milagres, entre eles as dez pragas, que destruíram completamente o Egito e quebraram o espírito obstinado e arrogante do Faraó.
 
O nome “Pessach” vem do versículo “E (D'us) verá o sangue sobre a verga e sobre os dois batentes, e D'us saltará (“Passach”) a entrada e Ele não permitirá o destruidor entrar em sua casa para destruir vocês” (Shemot 12:23). O verbo “Passach” pode ser entendido como “saltar” ou como “terá misericórdia”. O sangue ao qual o versículo se refere é o sangue do “Korban Pessach”, o cordeiro que foi sacrificado sob o comando de D'us antes da saída do Egito. Além de fazer o sacrifício, o povo judeu também recebeu o comando de utilizar o sangue do Korban para pintar os batentes das suas portas antes da vinda da última praga, a “Morte dos Primogênitos”. Deste versículo aprendemos que a exigência de pintar as portas das casas com o sangue do Korban Pessach era uma proteção para a casa dos judeus, para que D'us tivesse misericórdia deles, implicando que todo aquele que não pintasse suas portas com o sangue também teria sua casa atingida pela fúria de D'us despejada contra os egípcios.

Há algo que nos chama a atenção quando a Torá lista todos aqueles que foram atingidos pela última praga: “Aconteceu à meia-noite, e D'us golpeou todo primogênito na terra do Egito, desde o primogênito do Faraó, que se senta no seu trono, até o primogênito do cativo que está na prisão” (Shemot 12:29). Rashi (França, 1040 – 1105), diz que “cativo” trata-se de um estrangeiro que foi levado como prisioneiro ao Egito. Mas Rashi se incomoda com o fato do estrangeiro que está na prisão também ter sido atingido pela praga, já que ela era direcionada apenas aos egípcios, por todo mal que eles fizeram ao povo judeu. Rashi então explica que o motivo pelo qual o prisioneiro estrangeiro também foi atingido pela praga é que, caso ele saísse ileso, imediatamente creditaria aos seus próprios deuses a punição que recaiu sobre os egípcios, como se seus deuses estivessem mandando aquela praga como punição aos egípcios pela vergonha causada a ele.
 
De acordo com esta explicação de Rashi, o estrangeiro somente seria afetado pela praga para não atribuí-la aos seus deuses. Mas, se isto é verdade, então por que foi exigido dos judeus que eles fizessem um sinal em suas portas para que fossem protegidos do castigo? Se era uma punição voltada apenas aos egípcios e a única exceção foram os cativos idólatras, que poderiam atribuir sua salvação aos seus deuses, então por que os judeus não estavam automaticamente excluídos da última praga? Por que o versículo nos transmite o conceito de que pintar as portas com sangue era uma condição necessária para a salvação do povo judeu?
 
Outra pergunta surge quando refletimos sobre uma história trazida pelo Talmud (Sanhedrin 91a). Quando Alexandre Magno conquistou o Oriente Médio, ele criou um “Tribunal Internacional” para julgar as queixas trazidas pelas diferentes nações que se sentiam injustiçadas por atos feitos por outras nações. Uma das reclamações apresentadas no Tribunal foi dos egípcios contra os judeus. Os egípcios exigiam que todo o dinheiro e objetos de valor que o povo judeu havia levado embora do Egito durante a sua saída fossem devolvidos aos seus devidos donos. Um rabino chamado Gaviha ben Pessissa encabeçou a defesa do povo judeu. Ele contra-argumentou a acusação egípcia apresentando um cálculo que levava em consideração as milhares e milhares de horas que os judeus haviam trabalhado no Egito, demonstrando matematicamente que eram os egípcios que deviam dinheiro aos judeus. Diante deste fato, a reivindicação dos egípcios foi derrubada e eles fugiram envergonhados. Porém, desde quando um escravo tem direito de exigir uma compensação monetária do seu dono pelo trabalho executado? Se os judeus eram apenas escravos do Faraó, como o argumento do Rav Gaviha foi aceito no Tribunal de Alexandre Magno?
 
Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está em uma lei trazida pelo Rambam (Espanha, 1135 – Egito, 1204), de que um rei tem a autoridade de alistar, mesmo à força, súditos para que façam trabalhos pessoais para ele. Porém, isto não é um trabalho escravo e, por isso, o rei tem a obrigação de dar uma compensação financeira a estes indivíduos alistados. Portanto, o Rav Gaviha estava argumentando que os judeus haviam trabalhado como súditos egípcios alistados de forma forçada para executar os serviços do Faraó e, por isso, tinham o direito de exigir uma compensação monetária.
 
Do entendimento desta história aprendemos algo impressionante. Antes da salvação do povo judeu do Egito, percebemos que eles não se sentiam como um povo estrangeiro escravizado, e sim como súditos egípcios alistados à força pelo rei. Este conceito é reforçado pelo ensinamento dos nossos sábios de que apenas 20 por cento do povo judeu saiu do Egito. Os 80 por cento remanescentes se recusaram a abandonar sua “pátria mãe”. Eles morreram durante a praga da Escuridão para evitar que os egípcios pudessem testemunhar suas mortes. Isto significa que, durante a época em que os judeus viveram no Egito, grande parte do povo havia perdido completamente sua identidade judaica e considerava-se egípcio.
 
O Korban Pessach foi a maneira através da qual a identidade do povo judeu foi novamente moldada. O cordeiro era uma das maiores idolatrias egípcias e, portanto, o comando de sacrificá-lo e pintar os batentes com o seu sangue era uma demonstração de lealdade a D'us e um despertar da identidade judaica. A colocação do sangue nos batentes da porta significava que aquele que vivia na casa se identificava como um judeu e não como um egípcio. Caso o sinal não fosse encontrado nos batentes da casa, isto era uma afirmação de que os judeus que viviam naquela casa se definiam como súditos egípcios, não como judeus. Portanto, aqueles judeus que se sentiam egípcios também estavam sujeitos às consequências da última praga, a “Morte do Primogênito”.
 
Estamos há mais de 2 mil anos no exílio, um exílio difícil, de enorme escuridão espiritual, no qual o povo judeu perde cada vez mais sua identidade. Judeus espalhados pelos quatro cantos do mundo se sentem como parte das nações e não enxergam mais o judaísmo como sendo algo que nos une e nos conecta. A essência da Festa de Pessach é justamente resgatar a identidade do povo judeu. Nos lembrar quem somos, de onde viemos e para onde estamos indo. Nos recordar que, não importa onde estamos vivendo atualmente, somos os descendentes de Avraham, Ytzchak e Yaacov. Somos o povo escolhido por D'us, o povo retirado do Egito com Mão forte e Braço estendido, para nos tornarmos uma Luz a todas as nações do mundo. Porém, quando nos esquecemos da nossa identidade e da nossa missão, voltamos a ser simplesmente escravos egípcios.
 
Que possamos voltar a sentir orgulho da nossa identidade judaica.
 
Shabat Shalom e Pessach Kasher VeSameach

R' Efraim Birbojm

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