Mão oculta de D’us

Um enterro foi realizado em São Paulo, no cemitério judaico do Embu. Era uma segunda-feira de tarde e parecia um enterro normal, como qualquer outro. Mas a história por trás deste enterro é incrível.
 
Há alguns anos, na Santa Casa de São Paulo, faleceu um homem chamado Samuel Fishman. O hospital procurou por parentes e familiares, mas não encontrou ninguém. Eles então anunciaram sua morte em um jornal por seis meses, mas infelizmente ninguém veio para reivindicar o corpo. O hospital então solicitou à justiça permissão legal para utilizar o corpo na faculdade da Santa Casa e recebeu a permissão. O corpo foi colocado em um freezer, aguardando o momento em que seria dissecado e utilizado para estudos de medicina.
 
Certo dia, quase um ano e meio depois, uma mulher judia foi ao mercado para comprar bananas. Quando ela chegou em casa, olhou sem querer para o jornal no qual as bananas haviam sido embrulhadas. Era um jornal bem antigo, mas um pequeno anúncio chamou sua atenção. Era o anúncio do hospital à procura da família de Samuel Fishman. Sem nem sequer saber quem era Samuel Fishman, ela foi ao hospital e começou a fazer perguntas para obter mais informações. Ela foi informada que o corpo estava congelado e aguardando para ser utilizado em estudos. Desesperada, ela acionou o Chevra Kadisha de São Paulo para que se envolvesse no caso e fizesse os trâmites legais necessários para liberar o corpo. O Chevra Kadisha apelou aos tribunais para que o corpo fosse liberado e, após três meses de esforços incansáveis, conseguiu liberá-lo para o sepultamento no cemitério judaico.

Voluntários do Chevrah Kadisha participaram da purificação do corpo do Sr. Samuel Fishman na véspera de Tishá Be Av. Eles ficaram surpresos ao perceber que, por um ano e meio, o corpo havia permanecido intacto e nenhum estudo havia sido feito.

Esta história mostra como D'us faz as coisas acontecerem sem mostrar a Sua “face”. Uma mulher passou para comprar bananas, naquele horário, naquele dia, com aquele vendedor, envoltas naquele velho jornal. Tudo para que Samuel Fishman z”l pudesse ter um enterro digno em um cemitério judaico.

 

Nesta semana lemos a Parashá Tetzavê (literalmente “Ordene”), que começa descrevendo as maravilhosas roupas que os Cohanim (sacerdotes) utilizavam para realizar os serviços do Mishkan (Templo Móvel). Já no final da Parashá, a Torá também fala sobre um dos principais serviços espirituais feitos no Mishkan: a oferenda dos Korbanót (sacrifícios). A palavra “Korban” vem da raiz “Karov”, que significa “perto, próximo”. Os Korbanót eram uma maneira de nos aproximarmos espiritualmente de D'us. Por exemplo, quando alguém comete uma transgressão, isto causa um imediato afastamento espiritual. Quando ainda existiam os Templos, a pessoa se arrependia e oferecia um Korban, reconstruindo assim seu relacionamento com D'us.
 
E ao final deste Shabat (11 de março) começamos a reviver Purim, uma festa muito alegre na qual recordamos o grande milagre da salvação do povo judeu das mãos dos nossos inimigos durante o Exílio Persa. O povo judeu estava se assimilando e começando a se afastar cada vez mais de seus objetivos espirituais. Foi neste cenário que Haman, um terrível Rashá (malvado), odiador dos judeus, começou a crescer e se tornou o principal ministro do rei Achashverosh. Haman aproveitou-se de sua influência e de seu poder para decretar a morte de todos os judeus. O decreto de morte, com data marcada para ocorrer no dia 13 de Adar, sacudiu o povo judeu de sua apatia espiritual. Eles entenderam seu desvio, se arrependeram de seus erros, rezaram e foram perdoados. A desgraça iminente se transformou em salvação e a tristeza se transformou em uma alegre comemoração da vitória do povo judeu sobre os seus inimigos. Normalmente a festa de Purim cai junto com a Parashá Tetzavê. Qual é a conexão entre as duas?
 
Logo no início do reinado do rei Achashverosh, ele quis demonstrar seu poder dando um enorme banquete, aberto a todos os súditos. Esta festa, na qual as conversas giravam em torno de promiscuidades e futilidades, certamente não era o ambiente adequado ao povo judeu. Mas apesar da proibição de Mordechai, o líder espiritual dos judeus, eles participaram desta festa e não escutaram o grande sábio da geração, deixando D'us aborrecido. Todo o decreto de morte foi uma consequência do mau comportamento do povo judeu. Quando os judeus se arrependeram, o decreto Celestial foi revogado e, como consequência, o decreto físico de morte dos judeus também foi revogado.
 
Porém, algo nos chama a atenção ao refletirmos sobre os detalhes da história de Purim. Por que foi necessário que D'us elevasse Haman a um cargo tão alto e desse a ele tanta honra e poder, como está escrito: “Depois destas coisas o rei Achashverosh engrandeceu Haman, o elevou e colocou sua cadeira acima de todos os ministros que estavam com ele” (Ester 3:1)? Se o propósito era apenas despertar o povo judeu, não era necessário elevar Haman, D'us poderia ter feito com que o próprio rei Achashverosh fizesse o decreto! Como a elevação de Haman, um completo Rashá, um homem que apenas buscava honra, poder e prazeres, está conectada com a salvação do povo judeu?

Explica o livro “Meam Loez”, escrito por vários autores por volta do ano de 1730, que era necessário elevar Haman por um tempo limitado para que o povo judeu fizesse Teshuvá (se arrependesse e consertasse seus maus atos), e somente depois derrubá-lo e salvar os judeus. O Meam Loez está explicando dois aspectos interessantes sobre o crescimento meteórico de Haman. O primeiro aspecto é que D'us eleva os Reshaim antes de derrubá-los, como diz Shlomo HaMelech: “Antes da quebra, a grandeza” (Mishlei 16:18). De acordo com o Rav David Altshuler zt”l (século 18), mais conhecido por sua obra “Metsudat David”, o Rashá é elevado e recebe honrarias e poder para que assim sua posterior queda seja muito mais dolorosa, como diz o ditado: “Quanto mais alto, maior é a queda”.
 
Outro aspecto importante apontado pelo Meam Loez é o fato do povo judeu ter feito Teshuvá com a ascensão de Haman ao poder. Haman já era um conhecido odiador do povo judeu. O susto que foi causado aos judeus pelo fato de alguém tão perverso ter chegado a um cargo tão alto, com tanto poder e honra, certamente ajudou a despertar o coração adormecido deles. Em outras palavras, Haman foi apenas um fantoche, um instrumento nas mãos de D'us para trazer de volta o povo judeu que havia se desviado.
 
Há uma terceira e surpreendente resposta trazida pelo Rav Alexander Ziskind (Bielorússia, falecido em 1794), em sua famosa obra “Iessod VeShoresh Haavodá”. Ele explica que podemos colocar no coração uma alegria especial ao refletirmos sobre o crescimento de Haman, pois estava de acordo com os decretos e a Supervisão Particular de D'us. E por que D'us fez isto? Para que o futuro milagre da salvação do povo judeu fosse ainda maior e mais divulgado no mundo inteiro. Através da elevação do grande inimigo e opressor do povo judeu, o Nome de D'us, que protege o povo judeu como um pastor que protege sua ovelha do ataque de 70 lobos, foi santificado entre todos os povos do mundo. Quanto mais Haman se elevou, quanto mais poder ele conseguiu, mais o Nome de D'us foi santificado. Toda a grandeza e honra alcançadas por Haman se voltou contra ele, pois a queda de Haman fez com que fosse sabido e difundido entre todos que realmente Haman não tinha nenhum poder verdadeiro e que é D'us o único que tem controle sobre tudo o que acontece.
 
Este ensinamento também nos foi transmitido por David Hamelech (Rei David): “O homem simplório não saberá nem o tolo entenderá isso. Quando os Reshaim desabrocham como grama e florescem aqueles que fazem o mal, é somente para destruí-los para sempre. E Você permanece para sempre nas alturas” (Tehilim 92:7-9). David Hamelech está nos ensinando que os tolos não conseguem perceber que D'us tem controle sobre tudo o que ocorre no mundo. Mesmo quando parece que os Reshaim têm sucesso, mesmo quando aparentemente eles têm poder e honra, é apenas uma preparação de D'us para destruí-los, não apenas no Mundo Vindouro, mas também neste mundo. E quando isto acontece, D'us eleva Seu nome. Portanto, quanto mais o Rashá se eleva, mais sua queda causa uma santificação do Nome de D'us.
 
Se pararmos para refletir sobre os acontecimentos da Meguilá, perceberemos que a subida meteórica de Haman teve ainda outro desenrolar importante para o povo judeu. Assim diz a Meguilá: “E o rei tirou o seu anel que tinha tirado de Haman e deu-o a Mordechai, e Ester deu a Mordechai o comando da casa de Haman” (Meguilat Esther 8:2). Mordechai foi elevado a ministro do rei e assumiu exatamente o mesmo posto de Haman. Isto quer dizer que, quanto mais Haman subiu, maior foi a “herança” recebida por Mordechai. O Midrash (parte da Torá Oral) explica, no versículo “Depois destas coisas, o rei Achashverosh engrandeceu Haman”, que ao dar grandeza a Haman, D'us pensou: “Virá Haman, e o Rashá (malvado) apenas preparará, mas será o Tzadik (Justo) que vestirá. Virá Mordechai e pegará tudo dele e construirá o Beit Hamikdash”. Justamente a grandeza dada a Mordechai após a morte de Haman fez com que ele fosse muito respeitado, trazendo aos judeus uma época de muita tranquilidade e liberdade.
 
Um dos motivos que normalmente Purim cai junto com a Parashá Tetzavê é que a Parashá termina falando sobre os Korbanót. D'us quer que Seu povo esteja sempre conectado com Ele. Infelizmente, se não nos conectamos através das Mitzvót e da nossa Avodat Hashem (Serviço Divino), D'us tem outras maneiras de nos despertar e de nos trazer de volta. Muitos dos sofrimentos que passamos na vida poderiam ter sido evitados se nos comportássemos da maneira correta. D'us quer a nossa proximidade e está sempre cuidando de nós com um carinho especial.

A história de Purim se repete constantemente. Em todas as gerações Reshaim se levantam para destruir o povo judeu, mas D'us sempre nos salva de todos eles. E D'us nos protege sem que Sua mão possa ser vista abertamente. Porém, quem procura nas entrelinhas da história encontra D'us manejando tudo o quer acontece a cada instante. Mesmo nas situações nas quais parece que os Reshaim estão crescendo, devemos confiar em D'us, pois tudo faz parte dos Seus planos. Até mesmo um pequeno detalhe, como o enterro honroso de um simples judeu, não passa despercebido pelos Seus olhos. E D'us tem muitos intermediários para cumprir a Sua vontade, como falamos todos os dias na nossa Tefilá (reza): “Muitos são os pensamentos no coração do homem, mas é a vontade de D'us que sempre se cumpre”. Esta é a essência de Purim.

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