Medo de que?

“Há muitos anos o americano Allen Funt criou uma brincadeira que até hoje diverte milhares de pessoas no mundo inteiro: o “Candid Camera” (Câmera Escondida). A brincadeira consistia em esconder uma câmera e submeter pessoas comuns, que passavam pela rua, a difíceis testes, sem que soubessem que suas reações estavam sendo filmadas. Eram utilizados os mais criativos artifícios para amedrontar ou irritar as pessoas, e atores contracenavam com o desavisado pedestre. Depois que a pessoa passava pelo teste, em geral após um terrível susto ou uma explosão de irritação, o ator abraçava a “vítima”, apontava a câmera escondida e dizia “Smile, you are on Candid Camera” (Sorria, você participou do “Câmera Escondida”).

No dia 3 de fevereiro de 1969, Allen Funt estava no vôo 7 da Easter Airlines, que partiu de New Jersey com destino a Miami. O vôo transcorria tranquilo até que, uma hora após a decolagem, sequestradores foram até a cabine, renderam os pilotos e tomaram controle do avião. Pelo microfone da cabine eles anunciaram aos passageiros o sequestro e avisaram que o avião estava sendo desviado e que aterrissaria em Cuba.

No entanto, apesar da gravidade da situação, na qual os sequestradores poderiam facilmente derrubar o avião ou matar alguns passageiros para pressionar as autoridades a cumprir suas exigências, as pessoas não se sobressaltaram e não entraram em pânico. Por que? Ao verem que Allen Funt estava no vôo e conhecendo sua habilidade de “pregar peças” nas pessoas, todos pensaram que não era um seqüestro real e sim apenas mais uma piada do “Candid Camera”. Por isso todos se mantiveram tranquilos, e alguns até mesmo riram e aplaudiram, deixando os sequestradores sem entenderam a reação dos passageiros.

Provavelmente deve ter sido o único avião sequestrado na história cujos passageiros não sentiram medo. Todos tinham certeza que era uma grande brincadeira organizada por Allen Funt. Quem realmente sentiu medo foi o próprio Allen Funt, o único que sabia que o sequestro era real.

Apesar da maioria dos casos de sequestro terminar com mortos e feridos, este terminou com um final feliz. As autoridades de Cuba conseguiram resgatar com vida os passageiros do avião. Todos os envolvidos na operação de salvamento ressaltaram que o sucesso foi devido, principalmente, à reação calma dos passageiros” (História Real)

Em nossas vidas também passamos por muitos momentos de dificuldade. Certamente as consequências serão muito melhores se conseguirmos manter a calma nestes momentos difíceis.
 


Na Parashá desta semana, Shoftim, a Torá nos ensina sobre algumas das particularidades das guerras de conquista da Terra de Israel. Entre vários outros detalhes, a Torá lista as pessoas que estavam isentas de ir para a frente de batalha: todo aquele que tinha construído uma casa e ainda não a havia inaugurado, todo aquele que tinha plantado um vinhedo e ainda não o havia redimido, todo aquele que tinha noivado e ainda não havia casado, e todo aquele que estava com medo. O ponto em comum entre todas estas isenções é que, pelos motivos citados acima, as pessoas estariam com outras preocupações na cabeça e, portanto, não se focariam na guerra. Esta desatenção poderia facilmente “contagiar” os outros soldados, causando uma reação em cadeia negativa e um consequente enfraquecimento do exército.

Mas de todos os motivos de isenção, a maior preocupação era certamente com a pessoa que tinha medo, pois esta poderia facilmente espalhar pânico entre os soldados e “derreter o coração” dos outros combatentes. E assim o Cohen (sacerdote), instantes antes de ir para os combates, advertia os soldados sobre o medo: “Quando você sair para a guerra contra seu inimigo, e você ver o cavalo e a charrete, um povo maior do que o seu, não os tema, pois D’us, Quem te tirou do Egito, está com você” (Devarim 20:1). Nos ensina o Rabi Akiva que, se a pessoa sentisse medo mesmo depois de escutar esta garantia do Cohen de que D’us os protegeria, ele perdia seus méritos espirituais e não era merecedor de que D’us fizesse para ele nenhum milagre. Por isso ele não poderia acompanhar os outros combatentes.

Mas este conceito da Torá é difícil de ser entendido. O medo é um sentimento natural do ser humano. Tememos tudo o que é incerto ou o que é uma ameaça à nossa integridade física ou psicológica. Principalmente tememos a morte quando passamos por situações de risco. Como a Torá esperava que as pessoas não tivessem medo durante a guerra, principalmente quando elas viam que estavam prestes a lutar contra um povo bem equipado e com vantagem numérica?

A pergunta fica ainda mais difícil ao estudarmos um dos ensinamentos de Shlomo Hamelech (Rei Salomão), o mais sábio de todos os homens: “Bem afortunado é aquele que tem medo sempre” (Mishlei – Provérbios 28:14). Se o medo é algo tão negativo, por que Shlomo Hamelech ensina que é feliz quem tem medo sempre? E mesmo se o medo fosse algo positivo, como uma pessoa poderia viver constantemente com medo? Mesmo durante os bons momentos ela deveria sentir medo?

A resposta é que temos uma visão equivocada do que significa medo. Associamos sempre o medo a um sentimento negativo, que nos paralisa e nos desnorteia. Achamos que o único medo que existe é aquele que sentimos ao assistir um filme de terror ou de suspense. Mas a verdade é que existem dois tipos de medo, completamente diferentes. Um medo é realmente negativo, pois nos paralisa e nos afasta do nosso propósito, mas o outro tipo de medo é positivo, pois nos dá a motivação necessária para crescer espiritualmente e chegar ao topo. Explica o Talmud (Brachót 60a) que assim podemos explicar a contradição entre os versículos da Torá e de Mishlei, pois eles estão falando sobre dois tipos de medo diferentes. A Torá fala do medo negativo, que deve ser banido, enquanto Shlomo Hamelech fala do medo positivo, que deve ser cultivado sempre.

O medo negativo, que a Torá adverte e até mesmo isenta a pessoa de ir para a guerra, é consequência da falta de Emuná (fé). Ele nos atinge quando esquecemos de que há Alguém que sabe tudo, controla tudo e faz tudo pelo nosso próprio bem. Portanto, quanto mais a pessoa está afastada de D’us, maior o medo e a insegurança que sente nos momentos de dificuldade e perigo.

Já o medo positivo e desejável, ao contrário, é uma consequência do verdadeiro amor e temor a D’us. Quando fazemos qualquer ato neste mundo, influenciamos nossa eternidade. Quando fazemos bons atos, como respeitar ou ajudar ao próximo, estamos nos comportando como D’us, cuja essência é a bondade ilimitada e, consequentemente, nos aproximamos um pouco mais Dele. Mas quando fazemos atos de maldade, como prejudicar, roubar ou ofender outras pessoas, estamos nos comportando ao contrário de D’us e, consequentemente, nos afastamos um pouco mais Dele.

A pessoa que realmente ama e teme a D’us coloca em seu coração a vontade de se conectar cada vez mais com Ele. Por isso, aquele que sabe que cada Mitzvá o aproximará um pouco mais de D’us por toda a eternidade, não quer perder nenhuma oportunidade. Mesmo durante os bons momentos, a pessoa tem medo de perder alguma chance de fazer algum bom ato ou ajudar alguém. É este o motivo pelo qual vemos pessoas que dedicam suas vidas a ajudar aos outros, pensando sempre em como suprir as necessidades de seu semelhante. É impressionante a quantidade de “Guemachim” (instituições de caridade) que existem em Israel, preocupadas desde doar comida aos necessitados até suprir as menores necessidades das pessoas, ajudando proativamente em qualquer tipo de dificuldade.

Portanto, o medo que é resultado do amor e temor a D’us é algo muito positivo, pois nos incentiva a crescer e a melhorar cada vez mais. Devemos constantemente trabalhar em nosso coração a vontade de fazer o bem e o medo de perder oportunidades de crescimento. Já o medo que é resultado de uma falta de Emuná deve ser eliminado, pois é um medo que nos paralisa, nos prejudica e nos faz perder oportunidades. Mas afinal, há como melhorar nossa Emuná? Há como chegar ao nível de não sofrer ou sentir medo em situações de grande stress e dificuldade?

Por que uma pessoa que participa de um programa de “Câmera Escondida” tem reações tão fortes de medo ou de raiva ao serem expostos a um perigo ou a uma situação de stress? Pois ela não sabe que está sendo filmada e que tudo aquilo é apenas uma ilusão criada pelo diretor do programa para ver como a pessoa reage. Se uma pessoa fosse avisada com antecedência de que, ao virar a esquina, aconteceria alguma situação difícil, mas que na verdade era tudo uma “armação” para que a pessoa aparecesse em uma câmera escondida, ela não ficaria tranqüila e até mesmo se divertiria?

Esta é a maneira de como devemos viver nossas vidas para melhorar a nossa Emuná. Devemos colocar em nossos corações a certeza de que D’us não apenas acompanha tudo o que ocorre, mas é Ele quem cria todas as situações pelas quais passamos, e tudo apenas para o nosso bem. Muitas vezes Ele nos testa, mas para nos fazer o bem, pois a cada teste que vencemos nos elevamos espiritualmente e nos conectamos um pouco mais a Ele. Portanto, cada dificuldade é uma oportunidade de crescimento. Vivendo com a certeza de que tudo o que acontece faz parte dos planos de D’us, podemos vencer nossas dificuldades com facilidade, sem medo ou sofrimento.

Portanto, toda vez que estivermos passando por uma dificuldade, ao invés de reclamar ou desanimar, devemos olhar para cima e sorrir, pois estamos sendo filmados.

“SHETICATEV VETECHATEM BESSEFER CHAIM TOVIM” (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA).

SHABAT SHALOM

R’ Efraim Birbojm
 

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