Milagres que salvam vidas

“O mundo inteiro ainda aguarda ansiosamente notícias do Boeing 777 da Malaysia Air, que partiu na madrugada de sexta para sábado (08/03) de Kuala Lumpur (Malásia), com destino à Pequim, e simplesmente desapareceu sem deixar rastros. Após quase uma semana sem notícias, são poucas as esperanças de um desfecho feliz. As hipóteses vão de defeito mecânico a ataque terrorista. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que o voo MH370, que decolou com 239 passageiros, poderia ter decolado com mais um, se não fosse a Providência Divina. Um milagre que começou há poucos meses atrás.

Em janeiro deste ano, Andy, um judeu australiano não observante, decidiu visitar diversos países asiáticos. Ele entrou em contato com seu agente de viagens, um judeu ortodoxo de Israel, e enviou para ele o itinerário. Entre as solicitações de Andy estava um voo saindo da Malásia no dia 08/03, que era Shabat. Ao responder a solicitação de Andy, o agente de viagens informou o preço total dos voos e, sem maiores esclarecimentos, fez uma pequena alteração nas datas, mudando a saída da Malásia do dia 08/03 para o dia 07/03.

Quando Andy recebeu o e-mail do seu agente de viagens, gostou muito dos preços, mas se irritou com a mudança proposta. Ele escreveu novamente ao agente, reiterando que precisava permanecer mais um dia na Malásia, e exigiu a emissão do bilhete nas datas originalmente propostas. Mas o agente de viagens não voltou atrás. Preocupado com seu companheiro judeu que desrespeitaria o Shabat, ele informou a Andy que nunca colocava judeus durante voos no Shabat e, portanto, não poderia emitir aquela passagem na data desejada. O agente então sugeriu que Andy fizesse sozinho a emissão do bilhete daquele voo, enquanto ele cuidaria de emitir os bilhetes das outras viagens do itinerário. Andy concordou e decidiu cuidar pessoalmente da emissão do trecho entre a Malásia e a China. Ainda com uma ponta de esperanças, o agente insistiu mais uma vez para que Andy repensasse sua decisão.

Algumas horas depois, o agente de viagens recebeu um e-mail de Andy, no qual ele dizia que havia reconsiderado a data da viagem. Andy reconhecia no seu e-mail que deveria ser um judeu um pouco mais observante e, por isto, estava disposto a viajar um dia antes para não transgredir o Shabat. Ele inclusive pediu para que o agente de viagens lhe indicasse algum local na China onde ele pudesse passar o Shabat com comida Kasher. E assim, com a Mão de D’us orquestrando um milagre oculto, Andy partiu da Malásia na madrugada de quinta para sexta (07/03), ao invés de embarcar no meio do Shabat, no dia 08/03. Esta mudança salvou a vida de Andy” (História real).

Ensinam os nossos sábios: “Mais do que a pessoa guarda o Shabat, o Shabat guarda a pessoa”. Andy sentiu na pele o quanto este ensinamento é verdadeiro. Em meio a uma enorme tragédia, pelo menos uma história terminou com final feliz. E, não por coincidência, esta história ocorreu uma semana antes da festa de Purim, a data na qual relembramos que não existe acaso.

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Nesta semana lemos a Parashá Tzav, que continua nos ensinando sobre os Korbanót (sacrifícios) que eram oferecidos no Mishkan, entre ele o “Korban Todá”, que literalmente significa “Sacrifício de agradecimento”. Ele era oferecido por pessoas que haviam passado por algum grande perigo de vida. O Talmud (Brachót 54b) enumera quais perigos obrigavam a pessoa que saiu ilesa a trazer um Korban Todá: aquele que atravessou o oceano, aquele que atravessou o deserto, aquele que passou por uma grave doença e aquele que esteve na prisão. O propósito deste Korban era despertar na pessoa o agradecimento a D’us e o entendimento de que a salvação vem apenas através Dele, e não através de meios naturais, pois todas as criaturas são apenas ferramentas em Suas mãos, utilizadas para cumprir a Sua vontade.

Isto conecta a Parashá com a festa que se inicia logo após o fim do Shabat: Purim. Não é uma festa na qual comemoramos e agradecemos pela salvação de uma única pessoa, como ocorria quando alguém oferecia um Korban Todá, mas nesta festa nos alegramos e recordamos a salvação de um povo inteiro. Purim é a festa na qual revivemos a incrível salvação do povo judeu nos dias de Mordechai e Ester, quando conseguimos cancelar o decreto de Haman, a “Solução Final” proposta por ele contra os judeus, a tentativa de extermínio do povo inteiro em um único dia. Milagrosamente uma situação que parecia perdida se reverteu, e o que se encaminhava para uma gigantesca tragédia terminou como um dia de festa para todas as gerações.

Neste ano a festa de Purim tem uma pequena diferença em relação aos outros anos. Como este ano é bissexto, é acrescentado nele mais um mês. Na prática, ao invés de apenas um mês de Adar, temos dois meses, isto é, Adar I e Adar II. Portanto, há duas opções de quando comemorar a festa de Purim, em Adar I ou em Adar II. Qual o critério utilizado para decidir em qual mês devemos comemorar Purim? Explica o Talmud (Meguilá 6b) que devemos comemorar Purim em Adar II, para que a salvação de Purim esteja o mais próximo possível da salvação de Pessach, que comemoramos no mês de Nissan, o próximo mês depois de Adar. Mas o que significa este motivo que, segundo o Talmud, se sobrepõe às outras razões pelas quais Adar I seria mais propício para comemorar Purim? Qual a relação entre Pessach e Purim, festas aparentemente tão diferentes?

Explicam nossos sábios que realmente Purim e Pessach têm algumas diferenças marcantes. Por exemplo, enquanto em Pessach ocorreram milagres abertos, como as 10 pragas e a abertura do mar, em Purim os milagres foram todos ocultos, e somente prestando muita atenção nos detalhes e refletindo sobre a forma como tudo ocorreu é que conseguimos perceber a atuação de D’us nos bastidores. Porém, apesar das diferenças, estas duas festas também têm pontos em comum muito interessantes.

Entre as semelhanças, há algo que nos ensina uma importante lição. Se observarmos com atenção, perceberemos que tanto a salvação do Egito quanto a salvação de Purim começaram com passos que iam em direção contrária à salvação. No momento da libertação do Egito, D’us ordenou que cada judeu pedisse aos seus vizinhos roupas e objetos de ouro e prata. E foi justamente por causa destes utensílios de valor que os egípcios decidiram perseguir os judeus quando eles já estavam há alguns dias caminhando pelo deserto. Em uma primeira análise, nos parece que esta ordem de D’us para que os judeus pedissem aos egípcios objetos de valor foi uma atitude equivocada, pois levou os egípcios a novamente ameaçarem o povo judeu. Por que D’us fez as coisas acontecerem desta maneira, induzindo os egípcios a perseguirem o povo judeu mais uma vez? Em primeiro lugar, para que os egípcios entrassem no Mar Vermelho e fossem afogados, recebendo um castigo “medida por medida” por terem atirado os bebês judeus no Rio Nilo. E em segundo lugar, para internalizar no coração do povo judeu a certeza de que cumprir a vontade de D’us, mesmo quando na nossa visão limitada parece ser algo ilógico, sempre vale a pena, pois no final de contas os judeus foram salvos e ainda ficaram com aquela grande fortuna dos egípcios.

A história de Purim também começou com passos que iam em direção contrária à salvação. Mordechai convocou os judeus a desafiarem o rei Achashverosh, proibindo a participação de todo o povo no banquete oferecido pelo rei. Além disso, Mordechai também se recusava a se curvar diante de Haman, indo assim contra as leis da Pérsia. Aparentemente foram estas atitudes que colocaram o povo judeu diante de uma ameaça de extermínio, pois deixaram Haman furioso e fizeram com que ele estendesse seu ódio a todo o povo judeu. Porém, a verdade é que os atos de Mordechai foram os verdadeiros responsáveis pela salvação, pois apesar de irem contra a lógica humana, os atos de Mordechai estavam de acordo com a vontade de D’us. Como na salvação do Egito, os atos de Mordechai também tiveram dois propósitos. Em primeiro lugar, fez com que os inimigos do povo judeu fossem castigados “medida por medida”. Por exemplo, o ódio fez com que Haman construísse uma forca para pendurar Mordechai, mas ele mesmo acabou sendo enforcado nela. Em segundo lugar, para novamente internalizar no coração do povo judeu que mesmo uma conduta que pareça ilógica aos nossos olhos, mas que está de acordo com a vontade de D’us, certamente sempre trará bons resultados. Não apenas os judeus da Pérsia foram salvos, mas saíram poderosos e respeitados por todos, e puderam inclusive pegar todos os bens daqueles que queriam destruí-los, como ocorreu na saída do Egito.

Desta semelhança entre as duas salvações fica um importante ensinamento: não há nada melhor do que cumprir a vontade de D’us. Quando fazemos o que é correto, mesmo que em um primeiro momento não conseguimos entender a lógica, a longo prazo percebemos os benefícios. Como no caso do voo MH370, vemos que não somos nós que cuidamos das Mitzvót, são elas que, no final das contas, cuidam de nós.
 

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